quinta-feira, 30 de setembro de 2010

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Que vontade essa de ser, de estar, de beijar o mar.
Mas ser é coisa que já foi. Estar é coisa que já é.
Beijar será sempre meu furor, meu objetivo-amor.
Desejo de curta vida, dissolvido num mergulho profundo,
acabado num pulo de gato.
Sem hora pra terminar, é existente o estalar de um beijo no líquido suor das cavidades profundas de seres marítimos.
Em algum momento, não sabe quando, surge a vontade de um beijo na líquida saliva dos buracos negros de seres oceanicamente azuis.
Não quero ter tempo. O desejo não precisa durar.
Tenho muitas bocas para cantar.
O grito é minha respiração sub-aquática, e seu sopro pode ressoar algumas ondas musicais indo quebrar em algum ponto da superfície.
Beijo e grito. A onda como quadro em progressão. A espumas escorrem, não acabam nunca.
A dança das bocas.
Música e dança, inseparáveis enquanto movimento oportuno do amor.

Agora eu peço, com sua licença, Iemanjá
me dê seu corpo para mergulhar
prometo-lhe um beijo que adoce sua boca
que misture movimento com lugar

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

palavras para um bom dia acordado.

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Quero entrar em paranóia e fazer amor, me sentir assim meio idiota outra vez. Incapaz de coordenar uma idéia. Incapaz de representar o amor, porque quando represento me perco em mentiras. Quero dizer a minha verdade, um “eu te amo!”, paranóico ou não, idiota, talvez.

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

palavras para uma boa noite de sono...

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gosto de você mais do que deveria, e não há liberdade no mundo que me deixe sonhar. Mas do lado de dentro, onde os meus desejos estão aprisionados, posso dizer que sou livre para lhe beijar

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

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tudo pode dançar
até mesmo as palavras
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Aceitando as palavras...

Não sei o que seria até agora do meu blog sem a palavra, mas posso dizer que não sei o que seria da minha vida sem sua ausência.
Elas chegam em tropas. Muitas! As vezes me lembra a ditadura. A rigidez, a cobrança, a prisão.
Mas eu quero mesmo é que venham elas, todas, alucinadas!
Lutarei com fervor, domarei suas ganâncias, tirarei suas roupas, e nuas, me deitarei com elas.
Nada precisará ser dito.
Apenas os corpos, a dança, e o nosso amor será livre.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ah, o amor!

Eu estava andando pelo bairro da Liberdade aqui em São Paulo domingo passado, e me deparei com dois rapazes tirando fotografias de um jardim. Alguns curiosos se atentavam a olhar para aquele instante. Eu também não exitei. Queria saber o que havia de tão interessante ali para ser registrado. O jardim de fato era bonito, mas não continha muitas cores. Eu consegui reparar que nele tinha um caminho de cimento que dava em algum lugar, e não saber que lugar era esse me deixou surpresa, pois em seu horizonte só se via a Radial-Leste numa distância insólita como a perspectiva que se tem do outro lado de um abismo, onde chegar não é possível. O jardim estava trancado. Sim, me pergunto, era realmente um jardim? Jardins podem ser trancados? Era de uma grade vermelha, e na frente daquele caminho havia um portão, fechado. O caminho começava trancado e terminava no abismo da Radial-Leste. Minha curiosidade cresceu! Eu olhava e procurava...O que estes garotos tanto fotografam? Será que tem algum animalzinho lindo escondido nas folhagens?

Eu estava acompanhada de meu amigo Amadeu, que guardava uma máquina fotográfica e procurava por ali belezas as quais pudesse clicar. Queria apertar o gatilho, mas voltou pra casa sem ao menos gastar uma bala. Ele também olhou com curiosidade para aquele momento, mas virou-se com o discurso de quem não sentira tesão por tal imagem. - Não contém atrativos, só fotografo o que me atrai. Eu pensei: - É, realmente, este jardim não tem um colorido!

Mas que portão é este que nos impede de olhar o abismo na curva daquele caminho de pedras no bairro da Liberdade?

Fico triste quando as pessoas acham que o mundo tem que estar sempre nos dando atrativos para fazermos dele uma arte. A natureza está ali, despida, arreganhada, esperando um clic(zinho) qualquer, e nada.

Esperamos que venha de fora toda uma destreza de amar. Enquanto a simplicidade de um gesto interior pode pintar infinitas tonalidades de verde!

Eu ainda não sei o que aqueles dois garotos fotografavam, pois cada um tem uma lente objetiva do amor. Mas fui embora com o Amadeu sem que ele tenha amado. Fiquei triste por ele.

Eu, continuei procurando o amor, e na minha busca pude olhar no abismo daquele jardim e encontrar a encantadora Marisposa. Desde então meu amor por ela tem destrancado alguns portões da Liberdade.

Foto de Pedro Imenes.
http://picasaweb.google.com.br/pedroimenes

segunda-feira, 12 de abril de 2010

30.08.2006

Pinta de estilhaços meu vestido
Corta meu tecido
Fere o que te fere no mais breve frio e seco grito
Tira-me um pedaço de silêncio
e enche de vazio minha poesia mal escrita

Serrilha meus contornos com química de ferrugem
infecta minha seiva e mistúra com tua fúria
interrompe o meu suco
enfraquece os meus músculos
amputa minha raiz

De pétala em pétala
meu cetim retalhado enrrijece
a cada pingo vermelho jorrado
branco borrado de fim

Corre linha dentro de agulha
pelas margens desbotadas
desenha uma costura amargurada
traçado de um drama passional

sexta-feira, 9 de abril de 2010

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se puderes pular dos picos altos,
voará que nem águia
se puderes nadar como peixe das profundezas
verá o céu, sem qualquer impureza

é cru teu lugar no mundo
e somente com a carne viva
terá sentido o sabor

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Maria da Conceição

gira forte, gira solta
gira pomba no terreiro
gira pé de curupira
pra voltar de onde veio

gira cedo quando nasce
samba torto é teu enredo
gira sempre no improviso
pra dançar feito guerreiro


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segunda-feira, 5 de abril de 2010


Sou de um lugar onde os raios do Sol são raízes de terra fértil
sou exageradamente um emaranhado de fios, tecidos com delicadeza
uma perspectiva de Dali
uma pintura de Bosh
ou uma fotografia do Cariri

Nasci no futuro e morrerei no passado
numa explosão de átomos
onde o Big Bang sentiu orgasmo

Sou aquilo que acorda pra depois dormir
um Dejavu de uma imagem que ainda não se viu
um nó na garganta
um ponto de fuga
uma palavra muda

Nasci de um sonho e morrerei em vida
como madeira em seu único grito
como cigarra em seu último dia

terça-feira, 30 de março de 2010

Negra Flor de Dendê

Quero enrolar-me agora na delicadeza de cachos noturnos
deitando meus rosados seios no contraste sólido de amor diurno
provando do mais preto forte
que encavanhado me sorri tão lindo

Infinto é o gosto de olhar profundo as cores todas juntas em perspectiva
como se em cada ponto invocasse um tom à tona da tua cabocla música
levando um pouco de cada
um pouco de tudo
um pouco de mim.

Rosa amarela, esverdeada, toda de azul
tu tem um roxo, cor de Iansã, tem o vermelho cor da maçã
tem ouro no peito, sol na cabeça, e o meu amor

Oxalá te manda em dia de sexta num passarinho vindo do sul
tece tua seda, tua verdade, teu motivo de vaidade
nos lábios, a carne da fruta, bruta
com beijo quente ao longo da noite nua

Negra Flor de Dendê, seiva divina em meu querer
o que é das marés não roubarei
mas queira ser minha sobre a terra até que o sertão vire mar
e então dormir sobre os corais no abraço de Iemanjá

domingo, 28 de março de 2010

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que dança, que é luta
que luta na dança
da morte em vida
depois da ginga?

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sexta-feira, 26 de março de 2010

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instrumento tocado
é mesmo um instrumento dançado
tocar sem dançar
é mesmo dançar sem tocar

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quinta-feira, 11 de março de 2010


Quando danço estou mais perto de Deus.

terça-feira, 9 de março de 2010

É de maré os olhos grandes da mulher

Tenho visto tanta água nos olhos do meu bem
De nadar até o infinito, sem mesmo olhar pra trás
Será peixe, escorpião, carangueijo ou tubarão?
É bem uma sereia, que canta assobiando
feito pife no sertão

Tenho mais nada pra fazer, só ficar rezando
pra essa moça aparecer no meio do rojão
dançar até de dia e terminar na correnteza
levando embora minhas mazelas
que o diabo é feio que só a treva

Cada mergulho na beira da tua pisada
transborda água até minha alma
faz jacaré ficar em pé, e girassol nascer sorrindo
sei não de ficar minguando o rio
só sei de ver teu olho grande se arregalando,
mirando o meu sorriso

quarta-feira, 3 de março de 2010

Eureka!

Uma vez conheci uma garota. Nos dávamos super bem. Tínhamos idéias maravilhosas sobre o mundo para além das 3 dimensões e dos 5 sentidos. Inventávamos teorias, e queríamos aplicá-las no teatro. Um dia eu fui embora. E logo depois ela também partiu. Lugares distintos. Tempos divergentes. Nos encontramos umas duas vezes em diferentes lugares do país. Não éramos mais as mesmas. A comunicação não atingia mais os mesmos orgasmos. Ela falava muito, e eu silenciava demais. Ela estava mais abstrata no dizer, e eu mais concreta no calar. Senti repulsa. Quis fugir.

A lembrança do que éramos juntas a fazia acreditar que eu era a única companhia para a sua solidão. Mas ela não podia ser companhia para a multidão de pensamentos que me habitavam naquele momento.

Hoje tento analisar o que aconteceu. O que nos separou. O que desalinhou nossos planetas, qual das nossas tantas teorias era uma viagem total, ou qual era tão careta que não suportava nosso complexo mundo do sexo verbal.

Acabei de tomar um banho e comecei a entender... Primeiramente, o tempo e o espaço em que nos conhecemos eram tão mágicos quanto nós mesmas. Isso, mágico. Mágico é o que eu diria da física quântica para quem não consegue entendê-la.

Essa garota é feita de saltos, saltos mágicos. Dentro de um processamento que seu cérebro faz, ela não é obrigada a seguir todos os passos como numa sequencia de evolução crescente. Ela é capaz de ultrapassar certas etapas, e mesmo assim chegar na idéia final desejada. Ela funciona como a física quântica. Pode finalizar um plano sem seguir a sequencia, num tempo indefinido, pode voltar pra trás ou não. É como estar em dois lugares ao tempo, na mesma hora se cria o problema, e na mesma hora acha-se a solução. Ou ainda, a solução vem antes do problema. Essa garota fala bastante, jorra palavras, sua comunicação é uma poesia abstrata, como se duas palavras ocupassem o mesmo lugar em seu cérebro. Mas sem a capacidade humana de dizê-las ao mesmo tempo, suas frases soam desconexas.

Sinto-me muitas vezes como ela, mas agora sou só silencio.
Juntas somos um sintetizador. Ela: oscilador 1; eu: oscilador 2. Ela gera sons muito agudos, eu gero sons tão graves, tão graves, que o ouvido humano já não pode mais ouvir. Nossas combinações já não formam mais sons harmônicos como antigamente.

Sinto como se o mesmo que nos aproxima, nos distancia, o que depende é o observador. E quem é que nos observa? O espaço, o tempo, o teatro, cada uma de nós separadamente?

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segunda-feira, 1 de março de 2010

Me Perdoo-te.

Estou de volta, São Paulo. Desculpe todo aquele meu desdém. Desculpe a minha ignorância, a minha falta de respeito, meu ódio, minha frustração. Prometo não ferir mais lugar nenhum. Aprendi a amar todos aqueles por onde passei, e tenho certeza que nós duas podemos construir juntas essa relação de troca e carinho. Tentemos mais uma vez. A terceira, embora, na primeira quem me dispensou foi você. Agora estamos quites. Vamos recomeçar.

Aprendi que para amar o que está por fora de mim, é preciso primeiro amar o que está dentro. Que assim seja.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pra Longe do Paranoá

"Numa tarde quente eu fui me embora de Brasília
Num submarino do lago Paranoá
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro
namorando Madalena na beira do mar

Qualquer dia, mãe, você vai ter uma surpresa
Vendo na TV meu peito quase arrebentar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro
namorando Madalena na beira do mar

Quem quiser que faça o velho jogo da política
Na sifilítica maneira de pensar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro
namorando Madalena na beira do mar

Eu tenho o coração vermelho
E o que eu canto é o espelho do que se passa por lá"

Para quantas Palomas Oswaldo escreveu essa música?
Minha irmã cantarolar essas letras nos meus tempos de criança era puro pressentimento.
Poderia de uma canção nascer minha paixão pelo Rio?
O melhor de tudo é conhecer Madalena, um peixe de pele morena vinda do outro lado do mar.
Sentirei saudades do beijo que ficou no ar.
Neste porto ainda ei ancorar outra vez. Rio, a correnteza me leva pra outro mar, num mar onde o frio não perdoa a fadiga dos músculos.

Meu lugar é o que ocupo.
Lago, Lagoas, Rios, chuvas e mares. Quando durmo é pra lá que eu vou.
Eu sou de água sim, demasiamente aquática.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Quarta-feira de cinzas

Não era mais preciso que teu corpo parasse sobre o meu naquele minuto de tarde que o mundo novamente deveria de fazer eterno
preferia congelar a sensação do que agora era passado e ter comigo sempre presente o único forte rasgo de um grito
que os tantos móveis escondidos pelo quarto transformaram em silencio mas que era todo cheio de sabores, da saliva à carne de tua boca

não que eu não quisesse sentir novamente o peso da tua lingua
ou que não fosse por demais divino teus olhos mirando o meu umbigo
era por medo que o hoje não se tornasse ontem
e que sob a luz do dia fosse deveras nítido a sobriedade do teu corpo
pois uma vez ardida a água que desce pelas entranhas do teu estomago
teus lábios sobre os meus tem outro tremor, e meu gozo não é mais só meu

agora eu sei qual a verdadeira cor da manhã de uma quarta-feira de cinzas
é do verde de um olhar embriagado de beijos, sem perceber que já terminara o carnaval
onde os corpos ainda respiram grande, intensos, suados, aguardados pelo mar
é rosa quando os meus seios na tua mão encontram o desejo tansfigurado em ternura
porque ainda que me deixe nua num único gozo arrancado entre anos
lembrarei com um sorriso doce, o vôo rasante e ameaçador das tuas penas brancas

Se você fosse um homem, eu estaria grávida, como não, estou grávida de amor
de amor pelo desejo de amor.