Uma vez conheci uma garota. Nos dávamos super bem. Tínhamos idéias maravilhosas sobre o mundo para além das 3 dimensões e dos 5 sentidos. Inventávamos teorias, e queríamos aplicá-las no teatro. Um dia eu fui embora. E logo depois ela também partiu. Lugares distintos. Tempos divergentes. Nos encontramos umas duas vezes em diferentes lugares do país. Não éramos mais as mesmas. A comunicação não atingia mais os mesmos orgasmos. Ela falava muito, e eu silenciava demais. Ela estava mais abstrata no dizer, e eu mais concreta no calar. Senti repulsa. Quis fugir.
A lembrança do que éramos juntas a fazia acreditar que eu era a única companhia para a sua solidão. Mas ela não podia ser companhia para a multidão de pensamentos que me habitavam naquele momento.
Hoje tento analisar o que aconteceu. O que nos separou. O que desalinhou nossos planetas, qual das nossas tantas teorias era uma viagem total, ou qual era tão careta que não suportava nosso complexo mundo do sexo verbal.
Acabei de tomar um banho e comecei a entender... Primeiramente, o tempo e o espaço em que nos conhecemos eram tão mágicos quanto nós mesmas. Isso, mágico. Mágico é o que eu diria da física quântica para quem não consegue entendê-la.
Essa garota é feita de saltos, saltos mágicos. Dentro de um processamento que seu cérebro faz, ela não é obrigada a seguir todos os passos como numa sequencia de evolução crescente. Ela é capaz de ultrapassar certas etapas, e mesmo assim chegar na idéia final desejada. Ela funciona como a física quântica. Pode finalizar um plano sem seguir a sequencia, num tempo indefinido, pode voltar pra trás ou não. É como estar em dois lugares ao tempo, na mesma hora se cria o problema, e na mesma hora acha-se a solução. Ou ainda, a solução vem antes do problema. Essa garota fala bastante, jorra palavras, sua comunicação é uma poesia abstrata, como se duas palavras ocupassem o mesmo lugar em seu cérebro. Mas sem a capacidade humana de dizê-las ao mesmo tempo, suas frases soam desconexas.
Sinto-me muitas vezes como ela, mas agora sou só silencio.
Juntas somos um sintetizador. Ela: oscilador 1; eu: oscilador 2. Ela gera sons muito agudos, eu gero sons tão graves, tão graves, que o ouvido humano já não pode mais ouvir. Nossas combinações já não formam mais sons harmônicos como antigamente.
Sinto como se o mesmo que nos aproxima, nos distancia, o que depende é o observador. E quem é que nos observa? O espaço, o tempo, o teatro, cada uma de nós separadamente?
...
2 comentários:
Às vezes me encontro com seres, antigos conhecidos, antigos melhores amigos, antigos parceiros que eram os únicos que me entendiam perfeitamente. Sempre me encontro com eles dentro de mim até porque eles sempre estiveram dentor de mim. Eram a parte que me completavam e me entendia dentro de mim mesmo. Hoje não são mais. Há outros que fazem esse papel hoje. Esses também não serão mais esses daqui uns anos. Como sou feliz! Descubro! Aprendo! Como somos felizes! Eu e você. Um viva aos lúcidos! Não tão lúcidos assim nem em todos os momentos, mas pelo menos atentos. Viva aos atentos! Viva! Amo você!
Muito bom texto.
Fui lendo e me prendendo.
Paloma: Jornalismo é uma boa pedida.
João Jorge
PS: Além da música, claro.
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